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15 de fev. de 2010

Eleiçoes, por Fábio Zanini

"Em Angola, eleições que nunca vêm

Uma das coisas mais divertidas na política africana é adivinhar qual a desculpa esfarrapada que os líderes de Angola inventarão para se manterem no poder sem eleições livres.

O presidente José Eduardo dos Santos está no cargo desde 1979 (mais de três décadas, portanto), e não tem pressa de sair. Pior. Mantém-se lá sem o respaldo popular, adiando sucessivamente a data de eleições


A história se repetiu mais uma vez nessa semana. Dessa vez, a eleição foi adiada deste ano para 2012. A razão apontada por Zé Edu é de que há uma nova Constituição em vigência, e que, portanto, é difícil organizar uma votação em 2010. O que uma coisa tem a ver com a outra realmente é um mistério.

A última eleição presidencial angolana ocorreu em 1992, num intervalo da longa guerra civil de 28 anos que arruinou o país. Dois anos depois do pleito, o conflito do MPLA marxista (pelo menos nominalmente) com a UNITA (bancada pelo regime do apartheid sul-africano) recomeçou, dando ao presidente o pretexto perfeito para se manter no poder sem eleições.

Em 2002, há longos oito anos, portanto, a guerra acabou, e aí a desculpa era de que primeiro era preciso haver um mínimo de reconstrução antes do voto. No mesmo período, países tão ou mais devastados, como Iraque e Afeganistão, realizaram suas próprias eleições.

A promessa primeiro foi de eleição em 2008. Depois, 2009. Em seguida, 2010. E agora, 2012.

Tem mais: a nova Constituição acaba com o voto direto. Agora, o eleitor vota (se um dia votar, claro) num partido político. Torna-se chefe de Estado o líder do partido mais votado, num sistema cheio de falhas e problemas inspirado no modelo sul-africano. Em vez de fortalecer os partidos, esse modelo fortalece as burocracias internas das legendas, que não são órgãos sobre os quais a população tem influência. O partido torna-se mais importante que o Parlamento eleito.

Um ponto positivo de toda essa salada é que Angola caminhou nos últimos dias para deixar claro o que realmente é: uma ditadura disfarçada de democracia, em que a máquina governista tem controle absoluto sobre as instituições de Estado, relegando à oposição algumas migalhas nos espaços institucionais.

Alterar a Constituição é uma forma clássica de dar verniz democrático a artimanhas desavergonhadas para um grupelho se manter no poder. Quando o mandato está acabando, faz-se uma nova Carta e zera-se o jogo.

Aos 67 anos, José Eduardo dos Santos, há 31 anos no poder, poderá ficar mais dois mandatos de cinco anos na presidência de Angola, a partir de 2012. Em 2022, se estiver em perfeita saúde (e por enquanto está), completará incríveis 43 anos como presidente. Ele merece."

1 de dez. de 2009

Eleiçoes, por Johannes Beck

"Pérola da cooperação no Oceano Índico", "democracia exemplar" e "país africano de sucesso". Nos últimos tempos, instituições como o Banco Mundial, a União Europeia e o Governo federal alemão, não pouparam elogios à boa governação e à democratização em Moçambique. Mas as eleições de 28 de Outubro, apesar de bem organizadas e executadas, acusam defeitos de monta.

O incumprimento da lei pela CNE

A falta mais grave foi cometida pela Comissão Nacional de Eleições, quando excluiu as listas da terceira força política emergente, o Movimento Democrático de Moçambique (MDM) de nove dos 13 círculos eleitorais do país. Um número de outros pequenos partidos também foi excluído da votação.
A Comissão Nacional de Eleições justificou a sua decisão com a falha dos candidatos de entregar documentos como o certificado de registo criminal. Mas apesar de insistir no respeito à letra da lei por parte dos candidatos, a própria comissão não cumpriu os regulamentos. Por exemplo, recusou ao MDM um prazo para a entrega dos documentos em falta, assim como a possibilidade de substituir os candidatos.
Trata-se de uma violação clara da lei. Além disso, aquela entidade não justificou, até hoje, detalhadamente, as suas decisões, vedando o acesso a documentos relevantes.

Freliminização

Outras ocorrências tornaram estas eleições pouco justas. Os candidatos da FRELIMO recorreram sem pejo a recursos do Estado. Por exemplo, usando regularmente carros de serviço da administração pública para a deslocação durante a campanha eleitoral.Não é novidade para ninguém que em Moçambique é cada vez mais difícil distinguir entre a administração pública e o partido FRELIMO.
Desde a tomada de posse do Presidente, Armando Guebuza, em 2004, os funcionários do país sofrem uma pressão enorme para aderirem ao partido governamental.
A FRELIMO reserva para os seus membros os cargos mais importantes, vedando o acesso à administração aos especialistas independentes.

Os doadores internacionais deviam agir

Chegou a altura dos países doadores reivindicarem claramente uma maior democratização. O primeiro passo poderia ser a suspensão ou a redução drástica dos apoios directos alemães ao Orçamento de Estado de Maputo. Afinal de contas, entre as condições impostas pelo governo alemão para a concessão da ajuda orçamental destacam-se a boa governação e o respeito pelas regras da democracia.
Este seria um sinal inequívoco e bastante doloroso para o Governo de Moçambique. Metade do Orçamento de Estado é financiado directamente por ajudas externas. O que não impediria que fossem levados avante os projectos em curso em Moçambique financiados pelos doadores, uma vez que é mais fácil controlar a aplicação financeira neste contexto.
Ainda não é tarde para salvar a democracia em Moçambique. Mas para isso é necessário que os países doadores tornem explícita a necessidade de uma mudança de rumo da FRELIMO.
É preciso impedir que se repitam eleições injustas como as de 28 de Outubro passado.

Autor: Johannes Beck, Deutsche Welle